Texto que sintetiza 2008:
Com leituras cruzadas de prosa e de poesia, vivo o desencanto e tento reconstruir a mim mesma. Tenho sede de vida. É falso pensar que tenho domínio sobre as palavras, que posso manter distancia do que elas tentam me dizer. Igual a uma traça, me delicio com o toque do papel e o barulho das páginas. Engano-me propositalmente. Não quero ter o controle. As páginas me levam.
No silencio solitário da leitura percebo que um sentimento me faz companhia, ele está em mim há anos, um sentimento pleno e colorido que sabe mais de mim do que eu dele. Ele resolve aparecer ocupando meus pensamentos de forma transbordante e se dizendo digno de tomar conta de mim. Ele vem pisando firme, convicto, preponderante. Com medo, argumento a precipitação. Não sou ouvida. Ele manda, eu obedeço. Na tentativa de dominá-lo convido-o para estar comigo e ele aceita. De repente me sinto dominada, sobram palavras, perco a vontade de ler. Me perco.
O escuro potencializa meus sentidos e, mesmo tentando não entender o que sinto, meu corpo se rende pulsante e frágil ao desejo de roubar. Roubo, me apodero, quero todo o gosto, tudo comigo, dentro de mim.
Dou-me alguns direitos e, o melhor deles, é enfraquecer diante deste sentimento que se tornou consciente.
Ele é lúdico ou lúcido, ou lúcido por ser lúdico.
Lúdico sendo alegre e me fazendo sorrir a todo o momento, tendo em si todas as cores.
Lúcido por chegar na hora certa, se mostrar sem disfarces e com a intensidade devida, por ser parte de mim, por viver em mim sem posse.
O amor-próprio lúcido e lúdico. Um conhecido há anos que usualmente eu não deixava aparecer e, quando acontecia, rapidamente controlava sua participação.
O desencanto, no seu processo preto e branco, fez com que este amar surgisse tão forte. E a partir daí qualquer palavra lida nada mais é que um movimento voluntário de busca interna por ele. Agora retorno a leitura. Leio para ele, leio com ele.
Sorrio por fora, escancaradamente.
Não me interessa mais o controle.
Este encontro me fortalece.
Este encontro comigo mesma.

Uau! Está ótimo. Estou vendo que vou ter leitura, todos dias,nova.
ResponderExcluirParabésn!
Te-mãe
É bonito esse movimento de deixar sair o melhor de nós... Bacana. Vamos em frente...:)
ResponderExcluirO desabrochar ou o ressurgimento do amor-próprio? Bjs
ResponderExcluirNem um nem outro e sim o toque. Permitir tocar, permitir sentir, permitir estar bem.
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