Inevitável parar para lembrar quando tudo começou. Eu ainda brincava de balanço quando me dei conta que, de dentro de mim, sairia, um dia, minha filha. Achava lindo imaginar que teria uma filha de cabelos lisos e escuros, pela branca e boca vermelha, assim como a Branca de Neve. Ela se chamaria Laura. Laura, para mim, significava Luz. Os anos foram passando e secretamente eu seguia com meu desejo – uma filha. Encontros e desencontros afetivos, altos e baixos da vida, nada alterava este desejo intenso e inegociável. Vários anos mais tarde engravidei. Durante as 40 semanas da gestação tive o prazer de sentir o desenvolver desta menina que já se chamava Laura há tanto tempo. Não toquei uma música especial pra ela, não contei histórias ou qualquer outra dica da mídia psicológica, simplesmente convivi com ela e a convidei a fazer parte da minha vida. Trabalhou comigo, me escutou, viajou comigo, dançou comigo e fez parte dos meus momentos íntimos. Mas foi no dia do seu nascimento que de fato a conheci. Quando a recebi nos braços e a toquei percebi que ali estava o amor incondicional. Olhei para ela e me apresentei: OI LAURA, SEJA BEM VINDA A ESTA VIDA, VOU SER SUA MÃE DAQUI PRA FRENTE! E ali, naquela hora, passamos a ser mãe e filha. Eu sabia como amamentá-la, como cuidá-la, mas ainda não havia percebido este jeito de amar tão diferente. A cada novo dia de vida ficava claro que ela era uma pessoa única, com desejos e posicionamentos dela, e assim a respeitei sempre. Não acho que ela seja parecida comigo, acho que se parece mais com o pai dela ou, talvez, com minha mãe. Gosto é de perceber o que vem de dentro dela, o que ela traz de novo, de seu, de próprio. Vou, então, aprendendo a amar sem posse, a amar preparando para o mundo, a amar para que seja amada por outros. Um exercício e tanto para quem estava acostumada a amar para ter perto, para ter em casa, ao lado, como se ama namorado e marido. FILHO É OUTRO VETOR. Filho é para fora. 180 graus. É saber que vai se ferir, se frustrar, se perder, e mesmo assim deixar ir. É deixar claro que somos o porto seguro, pra onde ela pode retornar sempre, mas de onde ela precisa soltar as amarras e se lançar. Lindos 7 anos de convívio que se completam hoje. Linda menina doce e determinada, que passou a semana inteira na dúvida se queria ou não crescer, querendo já morar sozinha e pedindo ajuda para se secar depois do banho! Com medo do escuro e da morte, com curiosidade e magia, se achando princesa e grande, deitando pequena a espera de uma cantiga de ninar! Linda filha menina, surpreendente pessoa que divide conosco sua vida de forma tão intensa e saudável! Ela tem nela mãe e pai, família e amigos, todos juntos dentro do coração, afirmando e garantindo pertencimento e verdade. CHEIRO DE FILHA, vida de filha, bom ter uma filha, maravilhoso amar assim...Ah! Faltou falar do negrinho de colher! Este é nosso prato preferido de final de semana, vendo um filme na TV, comendo em colheradas cheias, muitas vezes no silencio hipnótico das imagens. Momento que fica escrito por dentro, que tem gosto e tem cheiro, que tem cumplicidade e parceria. Momentos como o de ir a pé para o Colégio, cantando pela rua. Como de cócegas e de luta em cima da minha cama. Como o das brigas e limites, as toneladas de “não” e os milhares de “sim”. Rotina bárbara de viver e de sentir-se vivo! Tocando a vida com tudo o que ela pode ser tocada. Luz intensa que nos conecta com o mundo dos que amam de verdade. Este amor com gosto de negrinho de colher, com cheiro de filha que é tão grande que não cabe na gente! Parabéns filha pelo dia de hoje, agradecimentos a vocês por estarem perto de nós, escrevendo esta história de vida, da vida desta pessoa que é a Laura, hoje com 7 anos.
A gente toca a vida com as mãos, com o coração. Toca a vida pela música, ao sentí-la por dentro. Toca a vida sempre, a cada dia, a todo instante. Porque tocar a própria vida é bárbaro!
domingo, 27 de fevereiro de 2011
domingo, 20 de fevereiro de 2011
CAOS CALMO
O tão desejado e necessário silêncio está aqui comigo esta noite.
Chegou depois de um dia ensolarado, junto com as nuvens pretas, sinalizando temporal. Ele veio. A chuva não. Percebendo que eu precisava de carinho, me acompanhou a cada instante, me tocou e entrou em mim suavemente, profundamente. E ficou. Cá estou, eu e ele, sem trocar uma palavra, num calmo... Caos?! Não tenho como deixá-lo dentro de mim, não posso que fique dentro de mim, prefiro a chuva que pode chorar comigo longamente. Mas a chuva não vem... Preciso desidratar de tanto chorar, para me livrar deste caos... Nenhuma lágrima sai de mim. Sempre gostei da companhia dele, sempre necessitei silêncio por dentro, mas hoje não posso hospedá-lo, preciso esvaziar estas tantas palavras caóticas que insistentemente querem sair e atabalhoadamente querem dizer o que meu coração não suporta pensar. Tento ficar quieta, esperando as horas passarem, esperando as coisas acalmarem, me adequando a normalidade. Gestos calmos, palavras aveludadas, expectativas correspondidas, mulher educada e afável. Palavras bem colocadas, pensadas, estudadas. Tons pastéis, batom cor de boca, unhas nude, brilho no olhar, sonhos bons. Calmo, tudo calmo, tudo conforme esperado. O silencio acompanhado. Acompanhado e adequado. Casca. Isto tudo é pura casca. É preciso ver por baixo das cascas, mais próximo das entranhas, onde estão as partes em ebulição, onde os pensamentos se agitam e o estômago contorce. Lá de onde vem as lágrimas, os delírios, os desejos, os gritos. Onde moram as palavras vãs, onde elas gritam, explodem, atordoam, ignoram e vomitam como querem. Onde se esconde a inquietação, o ódio e a culpa, a insônia e a dor, a náusea e o desprezo. Por dentro do caos. Puro cansaço.
Caos calmo.
Convívio diário entre o silêncio e a tormenta. Tudo eu. Eu mãe e mulher, convivendo com a ausência de mim mesma e na procura do sentimento que rege este caos. Tentando, desesperadamente, entrelaçar o sombrio e a luz que há em mim, conseguindo juntar os cacos do meu eu frágil, colando um a um com prazer imenso, entendendo minhas formas, cada pedaço, cada história, cada suor. Parceiros de caminhada - silêncio e solidão, música e sol – balizadores de humor, balizadores de mim. Onde está o bom senso que tanto me faz companhia, porque se ausenta logo hoje que preciso da sua voz? Não gosto de ser cerceada, sou claustrofóbica. Não sou nada possessiva, totalmente presente, mas várias vezes ausente de mim. Sufoco se não falo o que sinto, sufoco se não tenho retorno de som. Eterno exercício de achar o som por dentro, briga pelo controle da voz, caos que alivia o calmo dia de sol, que move e desacomoda, que me faz diferente e viva, que pulsa e expulsa o que de calmo existe e de inerte persiste.
Há de fato quem pode escutar também lamentos? Há, entre tantos, os que suportam palavras mais cruas, os capazes de enxugar litros de lágrimas, de suportar o silêncio conosco, até que passe o caos e venha a calmaria? Ou será mais fácil o convívio nos dias de sol e casos engraçados? A presença dos cáusticos e sarcásticos me parece atraente, os corretos e bem educados ficarão para outra ocasião. Todos fazem parte de mim, mas nem todos fazem parte da mesma parte que se reparte aqui em fragmentos. Que fique claro - o silêncio é bom demais quando meu convidado. Mas quando entra porta a dentro e fica, delimitando a distancia do toque, tornando intransponível, fechando, lacrando qualquer possibilidade, preciso matá-lo. Vamos conversar...
domingo, 30 de janeiro de 2011
oLhAr OpAcO
Uma noite quente de verão, uma estréia no cinema, sessão esgotada. Dentro do carro, olharam as estrelas e resolveram jantar. Junto com o cardápio veio a notícia do fim. Entre a escolha do vinho e do prato, em duas ou três frases, acabavam anos de relacionamento. A sessão estava esgotada. A relação estava encerrada.
Sem voz, sem chão, sem fome, sem sede e com o olhar afogado em lágrimas, ela ali ficou. Imobilizada. Nada. Ela era nada. Acabava de ser deletada.
Muitas palavras foram ditas, outras tantas ficaram soltas no pouco ar que havia para respirar. Ele vomitava sentimentos por sobre a mesa. O olhar dela se afogava... Lágrimas encharcavam seu rosto..
Nesta noite o sexo foi sedento, confuso, angustiado. O último. Inevitável.
O dia amanheceu cinzento. Não! O mundo amanheceu cinzento.
Encolhida num canto da sala da casa que a acolheu, ela ficava tentando lembrar as cores do seu mundo. Quase entrando em si mesma ela repetia, incessantemente, que não tinha chão, que não via cores. Dias e mais dias se passaram com ela encolhida no chão. Não havia o que a movesse dali. Não havia mundo, nem cor. Não havia chão, nem mundo.
Aos poucos conseguiu levantar. Dias depois, caminhar.
Com a ajuda dos seus, foi retornando ao mundo e enxugando as lágrimas. Abraços foram devolvendo a noção de dimensão. Pessoas foram deixando sua voz em intermináveis conversas. Ela já conseguia perceber o dia e a noite, o calor e o frio. E só. Meses se passaram para que ela percebesse o mundo, mas seu olhar estava sem vida, sem desejo. Ela seguia ausente de si.
Um olhar opaco, destes que a gente olha e não vê.
Iniciava, então, a mudança definitiva de posicionamento. Não importaria o preço desta caminhada, mas ninguém tiraria dela as cores que ela iria buscar. Estava nos anos 90.
Olhar opaco? Como assim?
Acordei com o olhar opaco! Que cilada é essa que a vida me apresenta? Já avisei que não admito isso pra mim! Já repeti mil vezes que nunca mais abro mão da minha suada conquista de autoestima! Então como é isso?
Espelho, espelho meu, como se atreve a me pregar tal peça?!
Como deixei que meu coração interferisse no meu olhar? Porque agora novamente, em pleno verão, com céu estrelado? Quase 20 anos depois!
Que vazio é esse que se apresenta e toma conta e me atordoa e me consome e me tira o sono e me dá tamanho cansaço?
Ora, ora, que onipotência essa minha em achar que minhas gavetas não se abririam!! Como elas não iriam abrir se eu abri meus sentimentos?!
Que sentimento é esse que me tirou do eixo?
Onde vou buscar forças hoje? Estou cansada, quero dormir. Dormir profundamente e acordar preenchida, preenchida por palavras e aconchego. Reluto e luto contra este silencio que me foi imposto. Luto contra o vácuo, contra o medo e a tristeza que sinto pela ausência.
Escrevo na tentativa de tirar de dentro de mim esta tristeza estranha que me remete a cenas lindas, que me fazem sorrir do nada. E, na medida em que agora escrevo, as cenas vêm renovadas, com cheiro e gosto, molhando meus olhos que piscam ritmados, me fazendo sorrir... ao lembrar cada detalhe.
Sorriso.
É isso!!!
É saber que o que está no passado distante pertence a outra vida, tem outras cores(esvaziei minha gaveta dos anos 90 somente em 2010, ufa..).
O que tenho dentro de mim agora é outra cena, outro momento, outra saudade, outra tristeza. Mesmo esta também precisa sair da gaveta. Preciso me desapegar e ficar somente com o sentimento de pertencimento vinculado ao que vivi e com quem vivi. Preciso respeitar o tempo e o tempo que o tempo dá. E se a vida me der a oportunidade de escrever mais histórias, que eu as viva, uma a uma, com o maior desprendimento possível, que eu deixe vir o olhar opaco, sem medo de me perder dentro dele, de perder minhas cores e meus sabores. Porque a vida é boa de ser vivida, e para viver temos que correr riscos.
Riscos calculados eu deixo para meus amigos das ciências exatas.
Eu prefiro o risco que faz suar frio, tremer por dentro, brilhar o olhar , esquentar o corpo, sair a voz.
Percebam o olhar, se olhem no espelho, encarem os desejos, abram suas gavetas, reorganizem o que dá prazer, descartem o resto e vivam muito e tudo.
Porque tocar a própria vida é bárbaro!!
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Dois
Durante anos Janeiro foi um mês de começos lentos, muito sol, noites gostosas.... planejamento, tempo para ler e pensar.....
Nos últimos anos este mês passou a ter outro significado:
Mês que meus dois amigos do coração fazem aniversário!!
Em função deles passei a tentar entender mais o Janeiro -
Capricórnio e Aquário.
Para eles escrevo hoje.
Um deles é terra outro é ar.
Um deles é música o outro agridoce.
Um deles é perto estando longe o outro longe estando perto.
Um deles é bom senso o outro filosofia.
Um deles é prático o outro teórico.
Os dois são ensolarados.
Os dois são confiança.
Os dois são amizade.
Os dois são cumplicidade.
Duas cidades,
Duas distâncias,
Amigos comuns,
Longas conversas,
Um pouco de tudo,
Um monte de vida,
Um imenso carinho.
Se pudesse teria os dois bem pertinho de mim,
Se pudesse faria serem felizes pra sempre,
Se pudesse daria flores e beijos, presentes e desejos e tudo de bom nesta vida.
Feliz aniversário!
Feliz mês de Janeiro!
Amo vocês!!
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
Malas prontas. Rumo a 2011!
Começo a fazer a mala para 2011.Começo a pensar na viagem. O primeiro dia do ano e os outros 364 dias seguintes. O que será que me aguarda? O que vou aprender no caminho? Qual clima vou viver? Qual será a temperatura?
Preciso começar pela minha mala, depois penso na da minha filha.
Abro as portas do meu armário, vejo pilhas disformes de vivências.
Nunca fui milimétrica, jamais arrumei cada momento em ordem cronológica ou de importância. Tudo é importante. Se está no armário = é importante.
O que não está lá eu descartei. Taí uma parte que faço com tranquilidade - o descarte. Ao menos um item de sustentabilidade = habilidade de me sustentar, consigo com leveza. Ufa...
Olho as coisas dobradas nas prateleiras e as penduradas em cabides.
Importante clarear que d-e-t-e-s-t-o duas coisas no mesmo cabide. Não gosto de misturar momentos. Cada um em seu lugar. Cada detalhe, de um momento bem curtido, tem que ter espaço para respirar ou... suspirar...... Alguns preciso colocar com cuidado, senão escorregam e amassam. Outros se acomodam bem, foram feitos para estarem ali, convivendo com os demais.
Meus olhos voltam às prateleiras disformes e coloridas. Puxo uma ou duas coisas para ver se não há nada no fundo.
Sim!! Não há quem não guarde coisas beeem no fundo, quase esquecidas, mas que ficam incomodando e amassando as outras empilhadas.
Resolvo escolher cores, várias cores, tamanhos também são importantes, vá saber se estarei magra ou gorda, alta ou baixa, feliz ou entristecida.
A mala está aberta. Esperando.
Vai esperar mais um pouco. Ainda não me sinto pronta para 2011. Se desse, pararia o tempo um pouco. Para tomar fôlego.
Serão tantos desafios que fico cansada só de pensar.
De repente, do nada, algumas cores pulam para a mala como se indispensáveis.
As cores da maternidade! As cores de ser mãe, de brincar e chorar, de compreender e relevar, de aprender e cultivar, gritar e xingar e tantos outros milhares de verbos.
Preciso colocar a cor do desapego e a cor da vulnerabilidade.
A da coragem sempre levo comigo. Nem sempre consigo achá-la dentro da mala, nem sempre consigo usá-la. Nesses momentos predomina a cor da insegurança, muitas vezes confundida com o lado avesso, do medo, do arrepio, da dúvida.
Depois olho para os calçados. Nossa!
Como uma mulher escolhe qual calçado se todos são vitais?
Como escolher se vou caminhar, correr, voar, rastejar ou vou ficar parada?
É claro que vou caminhar. Talvez até correr...sei lá... mas preciso do conforto e aconchego, assim como do salto alto.
Fé, foco e salto alto - este é o lema.
Precisarei ficar alta, muito alta, para enxergar além de mim mesma.
Mas pantufas são parceiras dos dias de chocolate quente e solidão. Certo. Elas também vão.
Maquiagem. Não posso esquecer disso! Na verdade nunca usei muito, sempre gostei da cara lavada, da transparência, mas sabemos que a vida requer maquiagem muitas vezes. Seja para esconder rugas de expressão de uma noite mal dormida ou de uma lágrima caída. Seja para festejar e namorar, para um tom de sedução. Para dar o tom da conversa, outras para silenciar uma pergunta. De qualquer forma imprescindível. Já coloquei na mala.
Que tamanho será minha mala? Preciso ser focada e simples. Preciso poder carregá-la onde quer que eu esteja. Preciso de mim mesma inteira, preenchida, presente. Hummmm isso tá ficando pesado demais. Depois será insuportável levantar do chão.
Melhor levar os telefones dos meus amigos. Precisarei deles. Todos. Sem exceção. Guardo eles no coração, onde é o devido lugar e onde jamais pesa. Minha família já está lá dentro.
Bem, começo a saber como e o quê separar.
Ao lado da minha mala abro a mala da minha filha.
Sim! Outra mala!
Cada uma de nós tem a sua.
Cada uma de nós caminha um percurso.
Agora já preencho a mala com a ajuda dela, já escolhendo itens e percebendo outros que coloco para ajudá-la.
Enquanto penso em como fazer as malas, duas palavras insistem em vir aqui: vulnerabilidade e desapego.
Um dos amigos que carrego junto comigo trabalhou este tema em 2010. Há todo um estudo sobre vulnerabilidade, dando clareza ao fato de que pessoas que se permitem sentir desde seu coração = corajosas, se abrem a serem quem são. Estas pessoas, portanto, são mais fortes, e têm na vulnerabilidade uma qualidade, uma fortaleza, e não uma fraqueza. Ficam vulneráveis às percepções que vêm do coração, de sua fonte de sabedoria interior, e por isto se tornam fortes.
Lindo, hein?! Juro que quero sentir isso assim, tão bonito assim.
Desapego pratico diariamente há anos. Nem sei porque preciso exercitar tanto. Porque não posso simplesmente tocar a vida tranquila...
Sabe aquela coisa: trabalho, casa, familia, amigos e tudo de novo?
Deve ter um sentido. O sentido tem que estar ligado a sensação de estar feliz, senão perde a graça.
Seguirei montando minha mala e a mala da minha filha. Serão montadas com esperança e felicidade, pois todos os que eu amo estarão dentro de nós duas e terei todas as cores e as texturas para recebê-los e compartilharmos vários novos momentos.
Por aqui agradeço a cada um que escreveu 2010 comigo, que esteve perto ou longe, que deu significado para a minha vida e a da minha filha. Cada um sabe o significado que tem na minha caminhada. Cada um sabe que pode contar comigo sempre e pra sempre.
Minha coragem existe por vocês existirem e saber que posso pedir ajuda é vital para que eu faça da minha vulnerabilidade uma ferramenta de crescimento contínuo.
Fecho a mala com gratidão.
Sou grata a voces.
Sou grata a vida que me proporciona momentos coloridos.
Sou grata a vida que me proporciona o conviver com uma pessoa como minha filha.
Sou grata a vida por ainda ter meus pais comigo, por poder ver o sol e caminhar a beira mar.
Obrigada por poder me sentir viva!
Malas prontas, rumo a 2011.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Índice de Queridez

O que é? Ihhh já começou torta nossa conversa. Eu mesma não sei explicar....
Qual a escala? Todas! Todas aquelas cheias de números, de infinitas possibilidades, daquelas que a engenharia não ensina e não mensura, daquelas que a gente descobre sozinha por aí.
Como começou isso? Ah! Tá melhorando! Esta é mais fácil de contar...
Estava eu na vida, já com vários anos vividos, quando conheci algumas pessoas, apresentadas por outra pessoa, circuladas por mais algumas pessoas, onde todas estas pessoas olhavam mais de verdade que tantas outras pessoas até então.
Claro que parei para entender. Como naquela altura da estrada eu descobria pessoas que olhavam? E enxergavam??? Em que mundo andava eu até então, que contava como migalhas quem de fato olhava no olho? Na verdade eu pouco "migalhava" por aí, já usava óculos escuros direto e deixava rolar.
Um segredo - e isso é importante: por detrás dos óculos escuros sempre olhei nos olhos. Sempre tive uma curiosidade louca de estar dentro do sentimento do outro. Sei lá.. talvez para não olhar para os meus, talvez por curiosidade pura, ou por sedução, ou por controle. O fato é que sempre olhei, cada detalhe, cada movimento.
Pois é, de repente a vida me dava isso de presente. E mais, além de olharem, eles falavam, escutavam e compartilhavam, é sério! Não tô brincando, nem me gabando! Eles existem mesmo! E são vários!
Devagarzinho fui me aproximando, devagarzinho fui me deixando conhecer, sempre agradecendo a quem me apresentou a eles. É claro! Nunca fui mal agradecida!
Tem o que lembra de todas as novelas que já existiram(eu mesma não lembro de nenhuma), tem o galanteador, tem o afetivo emocional, tem o que saca de tudo um pouco, tem o que contextualiza, tem o que abraça e fica, tem o volátil, tem o que tem música por dentro, já pensou? música por dentro?!!!!!Delícia! É claro que têm elas também, isso não é uma explicação de gênero, nem de preferência, nem de alto ou baixo, preto ou branco. O masculino aqui é de acordo com a língua portuguesa, mas tá bem.. pode substituir por feminino algumas coisas, mas nem todas, porque o masculino predomina.
Queridez vem do coração, fala de coração pra coração, ama cada dia mais, diz e repete isso, mil vezes, milhares de vezes, agradece sempre, guarda sempre, é pra sempre!
Bem... é claro que sempre temos os prediletos. Nada de desmerecimento, nada de comparações, somente por alguns o coração bate mais forte, as palavras saltam da boca e daria pra falar com eles a cada coisa boa que me acontece.
Basta o dia amanhecer com céu azul, sol e vida que já posso contar. Se o dia amanhece cinzento, pesado, chuvoso, tenho vontade de ligar e chorar um pouquinho.
A cada ganho dividir com eles, a cada perda, pedir um pouco de colo.
Alguns deles roubaram meu coração, acho que faço qualquer coisa por eles, humm.... bem... é... mas certamente por algumas roubadas. Lembro deles e penso em cerveja e música, lareira e vinho tinto, um bom churrasco, uma mesa de bar e horas de filosofia. Cada um deles aqui se reconhece, cada um deles sabe que faz parte de mim, como se fizesse desde sempre.
A foto que tá aqui é a que melhor representa o alto índice de queridez. Um dia especial na vida de dois especiais – casamento. Tá aí um bom motivo para abraço. Tão bacana casamento. Tanta felicidade junta num dia só. Já vivi isso, de vermelho. Já vivi início, meio e fim. Bacana quando a gente vive tudo e fecha ciclos, mas isso é outra conversa.
Sabe o dia de hoje por aqui? Com sol, céu azul, pássaros nas árvores, portas que se abrem e abraços de filha? Sabe este dia que a gente já levanta acreditando? É incrível como em dia como este a gente recebe email bacana, mensagens legais. A gente até escuta o sino da igreja tocar! E não é viagem! É que aqui muito perto tem mesmo uma igreja e o sino tá tocando agora! Que incrível! Deve tocar todos os dias e só hoje estou apta a escutá-lo.
Por mais vontade que eu tenha de seguir aqui escrevendo, porque quero chegar na definição de índice de queridez, preciso sair pra buscar minha filha no Colégio. Em 2010 vou a pé buscá-la e de chinelo havaianas, totalmente bicho grilo, um luxo. Normalmente voltamos cantando e vendo as formigas carregando folhas, ou cumprimentamos um cachorro preto que mora aqui perto, tudo isso depois de um picolé na frente do Colégio e muita conversa com todos os que lá encontramos. Acho que hoje vou comer picolé também, tenho certeza de que, em dias assim tão ensolarados, picolés não engordam!
De volta do colégio, agora já de madrugada, volto ao índice. Entre bocejos e cansaço, faço questão de chegar ao fim, ou melhor, ao meio. Aos meios que nos levam a perceber pessoas ao nosso redor. A possibilidade que a vida nos propicia de conhecer profundamente outros, de nos desnudar na frente deles, de construir relações pra sempre. E, mais uma vez, a vida passa certeira, nos mostrando o valor que tem a amizade. Este sentimento que sobrevive a tudo e sempre, que está linkado ao coração direto, sem escalas, que nos dá chão e torce conosco. Que não dorme, não se distrai. Presente.
É um presente.
E quanto vale sentir isso por dentro? Vale muito, sou rica, riquíssima! Tenho tanto dentro de mim que transbordo!
E, neste momento de vida, tanto faz estar ou não de óculos escuros, quero ver e ser vista, quero olhar no fundo do olho, quero tudo e muito, alto índice de queridez.
Façam aí os gráficos que lhe convierem, determinem os eixos, desenhem a curva, vivam muito! A cada dia vivido, a cada dia que escutamos o sino da igreja e enxergamos quem nos olha nos olhos, é mais um dia de alto índice de vida.
E se até aqui não deu pra entender nada deste tal índice de queridez, talvez esteja na hora de tirar os óculos escuros, por que não serei eu quem vai determinar a quantidade envolvida de amor em uma amizade. Mas vai uma dica: se quem tá ao redor tem baixo nível de queridez, libera a área e deixa outros entrarem, a fila anda pra amigos também. Agora se tá tudo meio cinza e não sabes perceber que história é essa, talvez tenhas que começar do começo: te cuida, tira os óculos escuros e te olha quando passares por um espelho!
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Mosaico

Está na hora de sair dos textos de tempos passados e deixar fluir o que me move agora.
Já remexi as gavetas, já rearranjei os significados e, se houverem ainda momentos que me levem lá, aproveitarei as palavras, descreverei os sentimentos, utilizando os verbos no passado, para deixar no lugar certo o momento vivido.
Como tenho o pedido para escrever sobre minha trajetória dentro dos 40 anos, aproveito a temática para entrar no Agora.
Foram nestes primeiros 5 anos dos 40 onde me posicionei com firmeza.
Com minha filha olhando dentro dos meus olhos e procurando em mim o referencial feminino, defini que nesta vida quero ser feliz agora.
Comecei quebrando os pedaços que ainda me pareciam perfeitos demais, juntei todos os cacos, sacudi todos eles assim como se sacode um vidro de cereais e comecei meu mosaico.
Pedaços disformes, irregulares, encantadores vão se mostrando e tomando seu lugar.
Recomeço a me montar deslumbrada com a força que descubro ter diante da única opção - a de seguir em frente.
Cada pedacinho requer cuidado e respeito.
Cada um é importantíssimo para o novo desenho.
Eu mesma tenho que fazê-lo. Não posso delegar.
Não posso procrastinar. Não tenho como parar.
É assim os 40 anos, energia, foco, determinação, minha filha crescendo comigo.
O prazer de assumir total responsabilidade sobre minhas escolhas e sobre meu trajeto.
Meu mosaico segue perseguindo as cores.
Não tenho mais pressa, agora sei esperar.
Não é complacência, é paciência, é conhecer os limites, é se aceitar.
Estou pronta hoje para o que a vida me solicita hoje.
E que venham as mudanças, elas confirmam que estou viva!
Assinar:
Postagens (Atom)

