domingo, 20 de março de 2011

claustrofobia

Imensa lua. Céu claro. Noite outonal. Comida japa. Companhia light. Parece tudo dominado? Uma noite agradável de março? Não. Não dá pra sentir assim. Tenho um nó na garganta, um aperto no peito, um medo no estômago, uma dor nos ossos, uma tristeza avassaladora. Acendo todas as luzes? ou escureço tudo? Falo, grito, bebo, choro, esperneio? ou silencio, penso, leio, escrevo, medito? Posso ficar em casa ou sair. Posso abrir as janelas e deixar a lua entrar. Posso isso ou aquilo. Posso. Mas não me permito. Castro meus pensamentos. Enquadro meus sentimentos. Estou claustrofóbica.  Não quero saber. Não quero pensar. Racionalizar novamente me dá náuseas... Começo a remexer entre roupas e sapatos, entre papéis e emails, não acho o que preciso achar, não me acho. Fecho os olhos, começo a cantarolar velhas músicas, resolvo pegar fotos. Tenho milhares de fotos, muitas impressas, ainda no HD muitas mais. Anos de fotos, fotos por ano, por evento, por lembrança, por momento. Cataloguei tantas delas, outras tantas nunca imprimi. Falam de mim, de outros, de vida, da vida, da minha vida. Falam pra mim. Se mostram resolvidas, solucionadas. Fotos são o que são e ponto. Se mudamos de idéia, se resolvemos fazer outras escolhas, as fotos não têm nada a ver com isso. Eu que me resolva sozinha. Fecho tudo e guardo, bem lá em cima do armário, bem no fundo da prateleira. Lembro da história que escutei de uma amiga japa/paulista/gaúcha esta semana: sua amiga, que mora no Japão e bem perto do ocorrido, está ilhada no seu apartamento, sozinha, sem comida, com racionamento de luz, eventualmente acesso a internet. Ela está esperando, assustada, só. O que de fato faz sentido para ela? Qual o tamanho do seu medo? Se ela olha pela janela vê tudo coberto de sal grosso, abandonado, sujo, destruído. E ela segue lá, no seu apartamento, esperando... tempo... claustrofobia. Claustrofobia minha em saber dela. Claustrofobia que não libera meus pensamentos, que não se solta de mim, que aperta, prende e sufoca, que não some nem com grito, nem com vento. Aqui entre quatro paredes a dor é intensa e me sinto mesquinha e pequena se penso na dor dela. A lua entra pela sala, invade meu pessimismo. Ela vem me provar que posso olhar além da janela, ela olha aqui dentro, ela entra e interfere, acaricia o chão e os móveis, se impõe como dona e me desafia a olhar mais fundo, muito fundo, além da tristeza, além dos papéis. Me força a chegar até a luz, esta luz que temos dentro, que muitas vezes não enxergamos de tão lotada de carcaças e pó. Luz esta que nos renova, que nos estima, que nos faz ir lá no início de nós. Entre tantos devaneios começo a falar com ela, a trazê-la à tona, preciso dela para me refazer, preciso acreditar, preciso sair da claustrofobia. Já sinto novamente o ar outonal desta noite clara. Fecho os olhos e sinto na pele o gelado da lua. Apago as luzes da casa só para sentir a luz, a convoco para me fazer companhia. Ela me aquece. Já me sinto acolhida. Já posso dormir. Já acredito que amanhã terá sol.
 

Um comentário:

  1. Uau!
    Tu e a lua!
    A lua também brilha sózinha!
    Os teus sentimentos...dói em mim!
    Tu e a lua!
    Só!
    E a solidão é uma das nossas certezas.
    Somos sós! E, ao mesmo tempo, temos a lua...
    E, amanhã, renascerá o sol...
    bjs/lindo/ Te

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